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Benefícios por lesões musculoesqueléticas de marítimos e fluviais

A rotina de trabalho dos profissionais marítimos e fluviais é marcada por um altíssimo nível de exigência física. O levantamento de cargas pesadas, a realização de movimentos repetitivos e o esforço constante para manter o equilíbrio diante da instabilidade das embarcações geram um desgaste severo ao corpo humano.

Com o passar do tempo, esse cenário frequentemente resulta no desenvolvimento de dores crônicas e patologias osteomusculares. É fundamental compreender que conviver com dores incapacitantes não é uma condição normal da profissão, e a legislação brasileira garante proteção previdenciária e trabalhista rigorosa para esses casos.

Neste artigo atualizado, explicaremos de forma estritamente técnica e direta quais são os benefícios previdenciários disponíveis no INSS para lesões musculoesqueléticas, como diferenciar doenças comuns de doenças ocupacionais e, principalmente, como organizar a sua documentação médica e laboral para comprovar o seu direito.

Vamos lá!

Neste texto você encontrará:

O que são as lesões musculoesqueléticas e como elas afetam marítimos e fluviais?

As lesões musculoesqueléticas abrangem um conjunto de patologias que afetam os músculos, tendões, nervos, articulações e ossos do trabalhador. 

No setor aquaviário, a ocorrência dessas doenças pode ser rastreada e prevista através de documentos ambientais obrigatórios da empresa, como o Laudo Técnico de Condições Ambientais do Trabalho (LTCAT) e o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), que indicam os riscos ergonômicos presentes na embarcação.

Abaixo, detalhamos os tipos de lesões mais comuns na realidade de marítimos e fluviais e exemplos práticos de como elas ocorrem:

Lombalgia

A lombalgia caracteriza-se por dores intensas na região inferior das costas (lombar), frequentemente causadas por posturas inadequadas e sobrecarga contínua.

Exemplo: um pescador que, ao levantar redes pesadas diariamente e de forma manual, desenvolve lombalgia crônica devido ao esforço constante. A severidade da dor passa a afetar diretamente sua capacidade de desempenhar as tarefas no convés.

Lesões por Esforço Repetitivo (LER)

As LER ocorrem devido à repetição contínua de um mesmo padrão de movimento, causando desgaste no sistema musculoesquelético ao longo do tempo.

Exemplo: um pescador de camarões que passa horas diárias descascando o pescado desenvolve uma lesão por esforço repetitivo nas mãos e punhos devido à biomecânica repetitiva exigida pela tarefa, gerando perda de força e mobilidade.

Tendinite

A tendinite é a inflamação dos tendões, estruturas que conectam os músculos aos ossos, gerada pelo uso excessivo de uma articulação específica.

Exemplo: um marinheiro responsável por operar guindastes regularmente desenvolve tendinite nos ombros devido aos movimentos contínuos dos braços exigidos pelo equipamento, tornando a lesão debilitante e impedindo a elevação dos membros superiores.

Lesões no joelho

O trabalho em embarcações sujeitas à oscilação das marés exige um esforço permanente das articulações inferiores para estabilização do corpo.

Exemplo: um membro da tripulação de um navio que, ao se deslocar no convés molhado durante um temporal, escorrega e sofre uma torção grave no joelho (ruptura de ligamentos ou menisco), exigindo intervenção cirúrgica e afastamento para reabilitação.

Fraturas, luxações e Capsulite Adesiva

Acidentes a bordo podem resultar em fraturas ósseas e deslocamentos articulares. Além disso, o esforço e traumas podem gerar quadros inflamatórios graves, como a Capsulite Adesiva.

Exemplo 5: um trabalhador de convés sofre uma queda devido à instabilidade acidental a bordo, resultando em uma fratura no tornozelo. 

Adicionalmente, trabalhadores expostos a traumas nos ombros ou imobilização prolongada vêm apresentando diagnósticos de Capsulite Adesiva (conhecida como ombro congelado), uma condição que causa rigidez extrema e dor no ombro, incapacitando totalmente o profissional para o manuseio de equipamentos pesados.

Quais são os benefícios do INSS para marítimos e fluviais com lesões musculoesqueléticas?

O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) disponibiliza três caminhos principais de proteção, cuja aplicação dependerá exclusivamente da gravidade, do grau de redução da capacidade e do tempo previsto para a recuperação da lesão.

Auxílio-doença (benefício por incapacidade temporária)

O auxílio-doença visa fornecer suporte financeiro durante o período em que o trabalhador está temporariamente incapaz de exercer suas funções a bordo (afastamentos superiores a 15 dias). 

Para ter direito, o marítimo deve possuir qualidade de segurado e ter cumprido a carência mínima de 12 meses (exceto em casos de acidentes, onde a carência é isenta).

O cálculo do benefício corresponde a 91% do chamado salário de benefício (que é a média dos salários de contribuição).

Exemplo: 

Imagine um marítimo chamado André que sofreu uma lesão musculoesquelética nas costas em uma situação pessoal fora do trabalho (escorregou enquanto limpava sua casa). 

Após o diagnóstico, ele solicita o Auxílio-Doença comum. 

O INSS realiza a média de 100% de seus salários de contribuição, chegando ao valor de R$ 3.000,00. O benefício mensal de André será de R$ 2.730,00, pagos enquanto persistir a incapacidade temporária.

Aposentadoria por invalidez (benefício por incapacidade permanente) 

Este benefício é exclusivo para os casos em que a lesão musculoesquelética gera uma incapacidade total e definitiva, sem qualquer possibilidade de reabilitação para a função original ou readaptação em outra atividade no mercado de trabalho.

Exemplo: 

João, um marítimo com 20 anos de contribuição, sofreu uma lesão permanente na coluna que o impossibilitou definitivamente de trabalhar. 

A perícia médica atestou a incapacidade total.

Pela regra atual, o valor da aposentadoria por invalidez comum é de 60% da média de todos os salários de contribuição, com acréscimo de 2% para cada ano que exceder 20 anos de contribuição para homens (e 15 anos para mulheres).

Como João possui exatos 20 anos de recolhimento, sua alíquota será de 60%. Se a sua média salarial for de R$ 2.500,00, a aposentadoria será de R$ 1.500,00 (60% de R$ 2.500,00).

Auxílio-acidente

O auxílio-acidente possui natureza estritamente indenizatória. Ele é concedido quando o trabalhador marítimo sofre um acidente (de qualquer natureza) e, após receber alta do auxílio-doença, permanece com uma sequela definitiva que reduz a sua capacidade para a faina marítima.

A grande vantagem deste benefício é que, por ser uma indenização, o marítimo pode retornar ao mercado de trabalho e receber o auxílio-acidente cumulativamente com o seu salário

Contudo, ele não pode ser acumulado com a aposentadoria (de qualquer espécie) e nem com um novo auxílio-doença gerado pela mesma lesão.

Qual é a diferença entre benefício comum (B31) e acidentário (B91) para doenças osteomusculares?

A origem da lesão altera substancialmente os direitos previdenciários e trabalhistas do segurado. As doenças musculoesqueléticas podem ser enquadradas em duas naturezas:

  • Benefícios comuns (espécies B31 e B32): são concedidos quando a lesão tem origem degenerativa ou pessoal, sem qualquer vínculo com as atividades realizadas na embarcação;
  • Benefícios acidentários (espécies B91 e B92): são concedidos quando a doença está diretamente relacionada às condições de trabalho (doença ocupacional) ou decorre de um acidente de trabalho típico a bordo. O estabelecimento desse nexo causal é fundamental.

 

A tabela abaixo ilustra as diferenças cruciais de processamento no INSS:

Critério

Auxílio-doença Comum (B31)

Auxílio-doença Acidentário (B91)

Aposentadoria por Invalidez Comum (B32)

Aposentadoria por Invalidez Acidentária (B92)

Origem da Incapacidade

Doença Comum

Acidente de Trabalho ou Doença Ocupacional

Doença Comum

Acidente de Trabalho ou Doença Ocupacional

Carência

12 meses de contribuição

Não há exigência de carência

12 meses de contribuição

Não há exigência de carência

Valor do Benefício

91% do salário de benefício (média dos salários de contribuição)

91% do salário de benefício (média dos salários de contribuição)

60% da média dos salários (+2% por ano extra)

100% da média de todos os salários de contribuição

Duração

Até a recuperação da capacidade

Até a recuperação da capacidade

Enquanto persistir a incapacidade

Enquanto persistir a incapacidade

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Quais são os direitos trabalhistas do marítimo afastado por doença ocupacional?

Quando a lesão é comprovadamente ocupacional e o INSS concede o benefício de natureza acidentária (B91), o marítimo adquire garantias trabalhistas que vão além do pagamento previdenciário:

  • estabilidade no emprego: o segurado não pode ser demitido sem justa causa por um período de 12 meses após a alta médica e retorno ao trabalho;
  • recolhimento do FGTS: o empregador é legalmente obrigado a manter os depósitos mensais do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) durante todo o período em que o funcionário estiver afastado pelo B91;
  • manutenção do plano de saúde: se a empresa fornece plano de saúde corporativo, ele deve ser mantido ativo durante a recuperação do trabalhador;
  • indenizações ou pensões civis: comprovada a culpa da empresa na ausência de ergonomia ou segurança, o trabalhador pode ingressar na Justiça do Trabalho cobrando indenizações por danos materiais (gastos médicos) e morais.

O que é a reabilitação profissional do INSS e como ela se aplica neste caso?

A Reabilitação Profissional é um programa do INSS direcionado a segurados que, devido a limitações músculo esqueléticas definitivas, não podem retornar às suas atividades habituais a bordo da embarcação, mas ainda possuem capacidade para exercer outras funções.

Esse processo de reabilitação busca a readaptação do marítimo para atuar em cargos administrativos ou operacionais em terra

O processo é conduzido por uma equipe multidisciplinar (médicos, assistentes sociais e psicólogos) que avalia as restrições físicas do segurado, providencia cursos de capacitação técnica, ajustes ergonômicos e, se necessário, o fornecimento de próteses e órteses. 

O benefício previdenciário é mantido até que o certificado de reabilitação seja emitido e o trabalhador seja reintegrado ao mercado.

Como comprovar a lesão musculoesquelética na perícia médica do INSS?

A prova da incapacidade baseia-se estritamente na qualidade da documentação médica apresentada. 

Durante a perícia, o profissional deve apresentar:

  • laudos médicos atualizados: devem conter o diagnóstico claro, a respectiva numeração da CID (Classificação Internacional de Doenças), o detalhamento das limitações motoras, o CRM, assinatura e carimbo do médico, além do tempo estimado necessário para o repouso;
  • exames de imagem e eletroneuromiografias: ressonâncias magnéticas, ultrassonografias e laudos de exames que evidenciem objetivamente a inflamação, o desgaste articular ou a fratura;
  • atestados de fisioterapia e receituários: para comprovar que o tratamento está em curso e a gravidade da medicação exigida;
  • LTCAT, PCMSO e CAT (se houver): documentos emitidos pela empresa armadora que são vitais para comprovar ao perito o nexo causal, ou seja, que a lesão foi gerada pelos riscos ergonômicos da embarcação, garantindo o benefício acidentário (B91);
  • documentos pessoais: RG, CPF, Carteira de Trabalho e Caderneta de Inscrição e Registro (CIR).

 

Como fazer o agendamento da perícia via Meu INSS?

O requerimento do benefício deve ser iniciado digitalmente. 

Siga os passos:

  1. Acesse o site ou aplicativo Meu INSS e faça login com seu CPF e senha Gov.br;
  2. No menu principal, selecione a opção Pedir Novo Benefício;
  3. Busque e clique em Benefício por Incapacidade Temporária (antigo Auxílio-Doença;
  4. O sistema solicitará a atualização de dados de contato. Confirme as informações;
  5. Preencha a data do último dia trabalhado e a data do início da incapacidade;
  6. Siga as instruções para anexar a documentação médica em PDF (ou selecione a opção de análise documental Atestmed, caso aplicável) ou escolha o local, data e horário para o exame presencial.

 

No dia da perícia presencial, o médico do INSS avaliará fisicamente a sua limitação de movimentos. 

O objetivo da perícia não é apenas confirmar a existência da doença, mas atestar se essa doença gera, de fato, a incapacidade laborativa para a função marítima.

Por que o planejamento previdenciário é necessário para o trabalhador aquaviário?

Diante da complexidade técnica das lesões musculoesqueléticas, submeter um requerimento ao INSS sem análise prévia representa um risco financeiro severo

O Planejamento Previdenciário é um serviço jurídico que atua como uma auditoria da vida laboral do marítimo.

Um advogado especialista analisa profundamente o histórico de contribuições, os dados lançados no CNIS e os agentes de risco ergonômico documentados nos laudos da embarcação. 

O objetivo é definir a estratégia correta de solicitação: garantir que o INSS reconheça o nexo ocupacional (para deferir o benefício B91 em vez do B31), evitar negativas administrativas por documentação inconsistente e assegurar que o cálculo da Renda Mensal Inicial (RMI) do benefício seja feito com precisão.

Conclusão

As lesões musculoesqueléticas, longe de serem meros contratempos, podem definir o encerramento precoce de uma carreira e comprometer o sustento da família. 

Entender a diferença estrutural entre um auxílio-doença comum, um benefício acidentário e uma aposentadoria por invalidez é o primeiro passo para resguardar o seu futuro.

Reivindicar esses direitos no INSS exige rigor técnico e documentação blindada contra os indeferimentos automáticos do INSS.

A Schmitz Advogados atua há quase três décadas na defesa intransigente dos direitos previdenciários dos trabalhadores marítimos e fluviais em todo o Brasil. 

Entre em contato com nossa equipe. 

Oferecemos atendimento totalmente digital ou presencial em uma de nossas unidades para garantir a solução adequada para o seu benefício.

Foto de Marília Schmitz
Marília Schmitz

Especialista em Direito Previdenciário com escritórios no Rio Grande do Sul e Espírito Santo. (OAB RS 079915)

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